Para refletir sobre a importância do canto litúrgico nas celebrações, talvez seja preciso compreender melhor a ligação entre a beleza e o bem, ao sumo bem: Deus.

São João Paulo II, em sua Carta aos Artistas, reflete sobre o assunto e nos aponta direcionamentos para o valor justo que se deve dar às expressões da arte na vida da Igreja. “A beleza é chave do mistério e apelo ao transcendente. É convite a saborear a vida e a sonhar o futuro. (...) suscita aquela arcana saudade de Deus que um enamorado do belo, como Santo Agostinho, soube interpretar com expressões incomparáveis: Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!”.

“Cantar é próprio de quem ama” (Santo Agostinho)

O canto litúrgico é, essencialmente, a resposta do povo, um dos meios em que a comunidade é convidada a se comunicar com Deus nas celebrações. Não é raro conhecer pessoas que tiveram experiências profundas e intensas com Deus por meio deste tipo de expressão artística. No canto as pessoas podem louvar a Deus, podem exprimir o inexprimível, podem, como bem escreveu Santo Agostinho, amar

A Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, ensina que "na Liturgia Deus fala ao seu povo, e Cristo continua a anunciar o Evangelho. Por seu lado, o povo responde a Deus com o canto e a oração" (n. 33). O canto litúrgico deve sempre levar as pessoas a compreenderem melhor a Palavra de Deus e jamais o contrário. “A Música Litúrgica autêntica traz consigo o selo da participação comunitária. Ela reflete o direito que todo cristão e toda cristã tem, por força do sacerdócio batismal, de expressar-se como assembleia celebrante que louva e agradece, suplica e oferece por Cristo, com Cristo e em Cristo, ao Pai, na unidade do Espírito Santo” (A música litúrgica no Brasil, Estudos da CNBB, n. 79, 1998). 

Por ser este canal de resposta, de expressão da criatura ao Criador, o critério que o torna seguro – do ponto de vista do relacionamento autêntico e firme com Deus – é a Palavra de Deus.

 

A Igreja precisa dos músicos

 

“A Igreja tem igualmente necessidade dos músicos. Quantas composições sacras foram elaboradas, ao longo dos séculos, por pessoas profundamente imbuídas pelo sentido do mistério! Crentes sem número alimentaram a sua fé com as melodias nascidas do coração de outros crentes, que se tornaram parte da Liturgia ou pelo menos uma ajuda muito válida para a sua decorosa realização. No cântico, a fé é sentida como uma exuberância de alegria, de amor, de segura esperança da intervenção salvífica de Deus”, expressa São João Paulo II em sua Carta aos Artistas. Com esse trecho, compreendemos que, na voz de um Papa, a Igreja nos motiva a dar esta atenção especial à música na liturgia e também aos músicos!

Cada vez mais, se faz necessário apoiar, formar e oferecer soluções para que o canto litúrgico seja este apoio no relacionamento de nossa comunidade com Deus.


A beleza contra o desespero

 

“O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração” (Mensagem do Papa Paulo VI aos artistas na conclusão Concílio Vaticano II).

A música, como expressão da beleza, não apenas como instrumento de evangelização, mas em caráter pastoral, é indiscutivelmente um sinal da beleza – do belo, do Cristo – que restitui a humanidade, que reaviva a esperança, os sonhos, que desperta o coração da humanidade diante do que a dureza do pecado fez morrer.

 

Referências bibliográficas

 

A música litúrgica no Brasil, Estudos da CNBB, n. 79, 1998 

 

Carta aos artistas, João Paulo II, 1999

https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1999/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists.html

Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, 1963
http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html

Mensagem do Papa Paulo VI aos artistas na conclusão Concílio Vaticano II, 1965

https://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/speeches/1965/documents/hf_p-vi_spe_19651208_epilogo-concilio-artisti.html